segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Chuva - Edson Gabriel Garcia



A primeira vez que li este texto, foi numa ocasião de despedida (a mesma despedida que me levou a criar esse texto AQUI). Ele serviu perfeitamente como uma metáfora para a ocasião uma vez que a pessoa que partia, como nesse texto, estava abrindo mão da felicidade para ver outra pessoa segurar o guarda chuva e... bem, é melhor irmos ao texto.
Girlene Neri, foi assim que nos despedimos.




“A primeira meia dúzia de pingos de chuva caiu de manso, apesar do escuro que o céu prometia desabar sobre o pedaço da cidade.
À saída da escola, nos portões abertos para a pequena multidão de alunos alegres com o final das aulas, misturavam-se chuva, gritos, guarda-chuvas, mais gritos, buzinas, olhares, corre-corre.
Dali, de onde eu estava, escondido sob a laje do pavimento de cima, podia vê-la mexendo na mala escolar, à procura de alguma coisa. Um guarda-chuva, certamente.
Quando ela viu que ele a olhava, desviou o verde de seus olhos e continuou, embaraçada, procurando o guarda-chuva. Até encontrá-lo.
Ele foi aproximando dela. Parecia pouco à vontade, mas decidido. Havia tempo ele a paquerava, de longe. Até achava ser correspondido.
Ela, desajeitada, abriu o guarda-chuva e preparou-se para enfrentar a água que agora caía bem mais forte.
- Vou lá perto de sua casa, me dá uma carona no guarda chuva?
O preto dos olhos dele fazendo a pergunta corajosa para os olhos verdes dela, quase vermelhos de vergonha.
- Se você quiser...
-Claro que quero. Não trouxe guarda-chuva, e se entrar nessa me molho todo.
-Então vamos.
O guarda-chuva aberto acolheu os dois. Próximos, emparelhados, roçando roupa com roupa, o coração dando pulos de contentamento.
-Que chuva, né?


-Inda mais sem esperar!
Um passo mal dado, uma poça d'água recém nascida, e os ombros se tocaram num primeiro encontro, quase ingênuo.
-Desculpe.
-Não foi nada!
A chuva aumentou a intensidade. Caía mais forte e escorria, danada e zombeteira, pelas abas do guarda-chuva.
-Você está se molhando.
-Você também.
-Não faz mal. Me dê sua mala, deixe que eu levo. Assim você fica livre para segurar o guarda-chuva.
-Obrigado.
Na passagem da mala, dela para ele, as mãos molhadas se tocaram levemente. O coração acelerou o ritmo e o rosto avermelhou-se.
A chuva ficou mais forte.
-Estamos nos molhando muito, vamos parar?
-Não, chuva é gostoso. Faz bem. É banho diferente. Lava tudo!
-Por minha culpa você está se molhando...
-Que nada, de qualquer jeito, nessa chuva, eu ficaria molhada... O guarda-chuva é pequeno...
-É...
Instintivamente ele passou o material para a mão direita e pôs seu braço esquerdo sobre o ombro dela.
-Se a gente se aperta um pouquinho debaixo do guarda-chuva, se molha menos.
-Acho que sim...
-O braço puxou o corpo dela para junto do corpo dele. O coração bateu mais depressa, o rosto queimava fogo, os corpos molhados vibravam.
-Já estou quase chegando. Minha casa é aquela de muro vermelho...
-Poxa, foi tão rápido...
Ele estreitou ainda mais o braço molhado. Não sentiu resistência. Ela soltava sua emoção, esparramada pelo corpo, para o braço do parceiro.
Apenas o cabo do guarda-chuva separava o desejo dos dois. Que engraçado: apenas um pedaço roliço de madeira limitando a geografia quente dos corpos. Em cima, embaixo, por todos os lados, a chuva forte derramava água farta, festejando o encontro juvenil.
-Posso falar com você outra vez?
-Na escola?
-Também.
Ela tingiu de brilho novo o verde dos olhos e respondeu com voz úmida, porém firme:
-Pode...
-Amanhã?
-Pode...
Eles selaram o acordo com o estreitamento maior das roupas molhadas.
-Faz tempo que eu queria falar com você.
Ela sorriu e deixou escapar:
-Eu também.
A casa de muro vermelho chegou perto deles.
-Cheguei.
-Que pena!
-Você quer ficar com meu guarda-chuva?
-Não, já estou todo molhado.
-Leva...
-Não...
-...
-...
O coração a mil, bateria louca de escola de samba em dia de desfile, o corpo molhado, a boca seca, o rosto pegando fogo. Estavam um em frente ao outro, debaixo da chuva forte.
De onde eu estava, protegido pela chuva, eu vi o guarda-chuva inclinar- se levemente para trás, cobrindo minha visão. Imaginei que esta manobra acidental me impediu de ver um beijo, tamanha foi a pressa com que ela entrou em casa e tamanha a alegria com que ele enfrentou a chuva, atirando para cima alguns cadernos, pulando poças e esticando braços e pernas numa sinfonia encharcada.
Foi mais ou menos assim que eu vi esse primeiro encontro dos dois. Foi mais ou menos assim que ele me contou.
Foi assim, sem dúvida, que perdi minha primeira namorada”.

Edson Gabriel Garcia
Postado por Kaio Rodrigues


7 comentários:

Marcia Lopes disse...

Divertido e poético! Gostei muito!rs
Bjs

Agatha de Assis disse...

Muito lindo maninho... Muito bacana o texto. Amei... As fotinhas ficaram lindas, combinando com o texto... :D

Beijokas

Daniele Nhasser disse...

Não existe no mundo acredito , alguem que mais se encanta com essas estorias simples e ao mesmo tempo repletas de magia quanto eu .
Lindo lindo , ameeei .
Parabeeens :)

Blogs http://danielenhasser.blogspot.com.br/
http://amantesdelivros-2012.blogspot.com.br/

Entre Dois Mundos disse...

Lindo!! Adorei a resenha a forma como retratou o livro... Eu amo romances!!
Parabéns!

Bjs, Lígia.

Elisandra disse...

Que lindo e ao mesmo tempo triste, realmente amo o jeito que você tem com as palavras.

Belíssimo texto.

Beijokas elis
http://amagiareal.blogspot.com.br/

Elisandra disse...

Agora que vi que o texto é de outra pessoa, mas resumindo amei vê-lo por aqui Kaio, pois nunca tinha lido..obrigado por compartilhar...vou lá ler seu texto.

Beijoaks elis

Jéssica Rodrigues disse...

srsrrs Gostei!
É um texto tão leve e legal fiquei rindo sozinha :)

Bjs
Jéssica

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